Como a violência afeta áreas do cérebro de crianças e adolescentes

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Crianças e adolescentes submetidos a episódios de violência desligam involuntariamente partes do cérebro responsáveis pela memória, empatia e emoções, colocando a mente, como afirmam professores da PUCRS, em “modo de sobrevivência”. Assim, a capacidade de concentração e de processamento de novas informações fica comprometida, aponta o estudo feito pelo Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Secretaria Estadual da Educação.

As consequências na vida adulta podem ser devastadoras se o problema não for diagnosticado a tempo, assegura Roberta Grudtner, psiquiatra que cursa especialização em abordagem da violência contra crianças e adolescentes pela PUCRS. A médica explica que os déficits cerebrais apontados na pesquisa acarretam em distúrbios de socialização, facilitam o envolvimento com drogas e álcool, aumentam a agressividade e ajudam na formação de adultos impulsivos.

— São pessoas que vão correr mais riscos no trânsito e se envolver mais facilmente com atos ilícitos. Formam-se cidadãos sem remorso, que fazem as coisas erradas e não se arrependem. Pessoas que não têm a capacidade de se colocar no lugar do outro — diagnostica.
É uma época em que o cérebro está se formando. Então, se essas áreas forem estimuladas de forma inadequada, vão causar, muitas vezes, sequelas para o resto da vida.

O Projeto Viva convidou 60 alunos entre 10 e 12 anos de diferentes regiões de Porto Alegre para responderem a perguntas e estímulos enquanto suas mentes eram filmadas por máquina de neuroimagem. O estudo, começado em novembro de 2016 e com previsão de término para março de 2018, pretende compreender os impactos da violência e do estresse precoce na aprendizagem e no cérebro destes estudantes.

— Fizemos uma avaliação do desempenho escolar e da capacidade intelectual dos alunos. Montamos também um questionário de vitimização com perguntas sobre situações do dia a dia que eles possam ter sofrido ou presenciado, como abusos sexuais, maus-tratos, tiroteios, agressões e assaltos — exemplifica o coordenador do projeto e pesquisador do Instituto do Cérebro, Augusto Buchweitz.

Essas crianças foram agrupadas conforme seu grau de vitimização. O índice de cada uma delas foi comparado ao desempenho escolar e a imagens capturadas no exame de ressonância magnética funcional. Os dados mostraram que os efeitos da exposição à violência nessa faixa etária interferem na atividade de determinadas zonas do cérebro. Nos casos mais críticos, o levantamento identificou, também, deterioração do desempenho, aumento da taxa de abandono escolar e problemas de frequência às aulas. A violência, de certa forma, retira do aluno o desenvolvimento pleno do seu potencial cognitivo e social, conclui parcialmente o projeto ainda em andamento.

— Estamos mostrando que partes do cérebro dos estudantes mais vitimizados estão se desligando. Eles não conseguem prestar atenção nas expressões faciais dos colegas, no ambiente a sua volta, talvez, como um mecanismo de defesa — conclui Buchweitz.

Habilidades comprometidas por episódios vividos

Quando adultos, esses estudantes tendem a acreditar que os impasses se resolvem por meio da força e não do diálogo. Manter empregos ou preservar relacionamentos irão requerer paciência e dedicação, habilidades comprometidas pelos episódios vividos.

— Se a pessoa não é tratada, esse comprometimento vai se intensificando. Ela precisa amadurecer o pensar e o sentir com uma equipe especializada de neurologistas, psiquiatras e psicólogos. Tem de ser acompanhada para poder compensar todo este estrago — complementa a psiquiatra Roberta Grudtner.

Para avalizar os resultados obtidos sobre os efeitos da violência na cognição de crianças e adolescentes, o estudo se utilizou, ainda, de avaliações moleculares do hormônio cortisol, retirado do fio do cabelo, e que indica o grau de estresse.

— Expostas a um nível muito alto de violência, sempre preocupadas em sobreviver, não sobra energia para aprender. De fato, é muito difícil obter concentração quando se está preocupado com o próximo tiroteio — acrescentou o professor da PUCRS Augusto Buchweitz.

Como o cérebro dos jovens tem grande capacidade de recuperação, o próximo passo da pesquisa é traçar um método para recuperar o aprendizado. Os resultados servirão para avaliar o efeito positivo das intervenções educacionais e ações públicas a partir de parâmetros de desempenho escolar, neuropsicológicos e neurobiológicos.

Os pesquisadores esperam que os dados sirvam para apoiar escolas e secretarias da Educação na implementação de estratégias de prevenção das dificuldades escolares associadas à violência. O estudo de Porto Alegre é parte de um projeto amplo de acompanhamento escolar realizado pelo BID no Brasil e em Honduras.

Retrato da violência na Capital

Um tiroteio às 13h15min da quarta-feira, 6 de setembro, assustou pais, alunos e professores que chegavam na Escola Municipal de Ensino Fundamental Wenceslau Fontoura, no bairro Mario Quintana, um dos mais violentos de Porto Alegre, com 35 assassinatos em 2017. Tanto que as aulas foram suspensas nos dias seguintes, prejudicando cerca de 900 estudantes. No quadro, ficou um pedido de socorro escrito a giz por uma das crianças de seis e sete anos que se jogaram no chão e rastejaram para baixo de uma mesa. A vice-diretora Luciene Alves concorda com os resultados parciais do estudo. Para ela, além do receio de ir às aulas, dentro da sala algumas crianças ficam dispersas e apreensivas.

— A gente percebe a tensão que pode causar, sim, problemas de aprendizagem. Durante os picos mais altos de violência, eles ficam nervosos e com dificuldade para prestar atenção _ comenta.

Sensação parecida tem uma dona de casa, mãe de três meninos e moradora do Mario Quintana. Ela conta que o caçula precisa se dedicar mais do que os irmãos para passar de ano. Hoje, aos 10 anos, parece não ter superado os tapas e chutes que recebia do padrasto quando sua mãe saía para trabalhar.

— Meu ex-marido não aceitava. Não sei se tem alguma relação, mas ele não tem o mesmo ritmo dos outros na escola — diz a mãe.

Neurologista da infância e adolescência, Marco Antônio Arruda cita avaliações feitas em crianças de adolescentes antes e depois de presenciarem ou sofrerem algum tipo de violência. Estes estudos comprovaram a diminuição do telômero, estrutura ligada à longevidade, após episódios de agressão.

— É uma época em que o cérebro está se formando. Então, se essas áreas forem estimuladas de forma inadequada, vão causar, muitas vezes, sequelas para o resto da vida.

Fonte: Zero Hora