Mostra expõe histórias de mulheres vítimas de violência doméstica no RS

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“Eliane tinha o nome do companheiro tatuado no braço. Ela havia terminado o relacionamento anterior para ficar com Matusalém. Porém, o amor foi dando lugar às agressões físicas e psicológicas.”

Este é o início de um dos 20 relatos de feminicídios – qualificador do crime de homicídio contra mulher e classificado como hediondo desde 2006 – expostos no Palácio da Justiça, no Centro Histórico de Porto Alegre. A intenção é chocar e fazer refletir sobre a violência contra a mulher.

A mostra “Agora ou na hora de nossa morte”, inaugurada na segunda-feira (6), segue até a sexta (10). Na exposição, os relatos estão colocados painéis dispostos em um varal ao lado de sutiãs pretos, que simbolizam a morte de mulheres vítimas de maridos e companheiros.

Nos painéis, textos em cor-de-rosa resumem as trajetórias de mulheres até sofrerem violência doméstica. Do outro lado da tela, em preto, símbolo do luto, são contados os desfechos trágicos das histórias. Como a da Eliane, que ocorreu na cidade de Soledade, na região Norte do Rio Grande do Sul, em 2011.

“Ela tentou se separar dele, inclusive, pedindo a concessão de medidas protetivas. Mas acabou voltando atrás e o casal se reconciliou. Segundo a mãe da vítima, ela temia que ‘algo pior acontecesse’.

Eliane foi levada pelo ex-companheiro até a propriedade rural do irmão dele, onde foi mantida em cárcere. Ela tentou fugir por três vezes, mas sem sucesso. Em todas as tentativas, ele conseguiu alcançá-la.

Ela foi estrangulada por Matusalém dentro do quarto. Ele ainda tentou simular um suicídio da vítima, envolvendo o pescoço dela com uma corda. Em 2012, o réu foi condenado a 22 anos e um mês de reclusão.”

Casos como o de Elaine são frequentes. No último ano, 99 mulheres foram vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul. Em 2016, foram 51.219 medidas protetivas solicitadas ao Poder Judiciário. Destas, 54% foram deferidas.

Para a juíza-corregedora Traudi Beatriz Grabin, o aumento de denúncias é positivo. “Os números demonstram a coragem e o maior esclarecimento das mulheres”, afirma a magistrada, chefe da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça.

“A exposição é impactante. São histórias de vida e de morte de mulheres. São retratos de horrores”, conta Traudi. “É tudo real. É a nossa realidade”, lamenta a juíza, uma das organizadoras da mostra que integra a 7ª Semana da Justiça pela Paz em Casa.

No saguão do Palácio da Justiça, é possível ouvir relatos de vítimas de violência doméstica que sobreviveram às agressões de companheiros. Seus depoimentos foram gravados em áudio e podem ser acessados por meio de fones de ouvido. Também são expostos números deste tipo de crime no estado. Há, ainda, um mural que convida os visitantes a sugerirem uma solução para o problema.

A hora é agora
Orientação, reflexão e atendimento a homens são os pilares do projeto Hora, desenvolvido em Caxias do Sul, na Serra gaúcha. Desde 2014, foram atendidos 425 maridos ou companheiros que agrediram companheiras na região.

“Quando chega um pedido de medida protetiva, sendo deferido ou não, a mulher é intimada a comparecer na coordenadoria da mulher. Paralelamente, intimamos o agressor a comparecer em uma data pré-determinada no fórum”, conta o juiz Emerson Jardim Kaminski, que coordena o projeto.

“Ele chega sem saber o que é e participa de uma reunião com outros homens, onde é explicado o motivo dele estar ali e é apresentado o projeto Hora. A adesão é voluntária”, complementa o magistrado.

Kaminski conta que 1,2 mil homens já compareceram ao fórum desde o início do projeto. Dos 425 que chegaram ao final dos dez encontros, seis reincidiram em agressões. “Eles chegam sempre alterados, mas explicamos que nenhum deles está ali na condição de marginal. Todos são convidados a contarem sobre sua vida para melhorar a própria compreensão como seres humanos”, diz o juiz.

Nos encontros realizados semanalmente, são desenvolvidas atividades que trabalham a igualdade de gênero e refletem o papel do homem na sociedade. “O projeto mostra que é indispensável investir na educação para auxiliar na melhora da autoestima masculina e, consequentemente, na diminuição da violência doméstica”, finaliza Kaminski.

Serviço
O que: Exposição ‘Agora ou na hora de nossa morte’;
Onde: Palácio da Justiça (Praça da Matriz, n° 55, Centro, Porto Alegre);
Quando: de 6 a 10 de março, das 9h às 18h;
Valor: visitação gratuita.

Fonte: G1