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Pelos filhos de nossos filhos

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Sou um cidadão que carrega um otimismo incurável. Daqueles que cai e levanta e, depois de cair novamente, levanta, não importa qual seja a dificuldade. É muito fácil desistir das coisas. De forma geral, as pessoas estão acostumadas a isso no Brasil. Mas só aquelas que sentem na pele a dor de perder um filho, de forma fria e inescrupulosa, sabem como é a verdadeira sensação de vazio, de falta de forças. Há 14 anos, meu otimismo levou esse golpe, cambaleou. E quando todos esperavam que eu fosse sucumbir, incluindo eu mesmo, renasci.

Me reinventei e juntei os cacos porque lá no fundo sabia que aquilo teria que ter algum sentido, mesmo que fosse absurdo. E no fim das contas, o absurdo teria sido ficar relapso, enquanto o mundo seguia seu curso e a violência fazia suas vítimas. Eu sabia que lutar por aquilo havia mudado minha missão de vida e de que deveria transformar a memória do meu filho em uma causa digna do amor que tenho por ele.

Há uma diferença gritante que separa 2002 e 2016. A taxa de homicídios cresceu aproximadamente 12%, mas o que perturba e tira o sono da população é a sensação de insegurança e de aprisionamento domiciliar. Há 14 anos, éramos um país violento. Hoje, somos autodestrutivos. A segurança pública, ou a falta dela, está presa a um sistema falido, à inversão de valores, às brechas da legislação e à falta de lógica e má vontade de inúmeros políticos que passam por nossas administrações públicas. Presídios sucateados e lotados, pequenos crimes sendo ignorados ou rapidamente esquecidos diante da falta de vagas, e a falta de profissionais nas ruas para proteger a população resumem o cenário em que vivemos.

Nesse meio tempo, o Brasil acordou para muitas coisas. As pessoas foram às ruas para protestar e, de certo modo, foram ouvidas em suas manifestações. Mas cansaram de protestar pela violência. Ao contrário das outras causas, elas não vislumbram uma luz no fim do túnel. Elas se veem entregues ao próprio destino, impotentes. E isso não é uma sensação, é a realidade.

Como um otimista incurável, sigo querendo mudar isso. Sei que não depende só de mim, afinal, se queremos chegar mais rápido em algum lugar, vamos sozinhos. Se queremos ir mais longe, devemos ir juntos.

Luiz Fernando Oderich – presidente da ONG Brasil Sem Grades